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quinta-feira, 30 de setembro de 2010


Sobre Bob Dylan.

Antes de mais nada, admito que não sou uma grande conhecedora da obra de Bob Dylan. Tenho plena consciência de que nem muita coisa tenho: a me olhar da estante, neste exato momento, estão Highway 61 Revisited, Blonde on Blonde, All back home e Blood on the tracks. Também tenho uns 3 ou 4 dvd's e algumas porcarias achadas no emule, mas nada que me credencie a figurar no seleto grupo de xiitas sobre o poeta.
Mas tudo bem.
A primeira vez que o ouvi, estava na casa de um tio meu que sabe muito sobre a arte da poesia (e outras também). Aliás, olhando em retrospecto, acho que ele tentava me ensinar alguma coisa aquele dia. No entanto, eu, adolescente em trânsito pelos anos 90, estava mais preocupada com a unha roxa do Nuno Bittencourt ou o último bigode do James Hetfield . (talvez Bob Dylan seja como os filmes de Woody Allen... você não será alegremente espancado pelos primeiros quinze minutos de 'Manhattan' se ainda tiver 14 anos e seu maior dilema na vida for decorar equações para a prova de química).
De qualquer forma (e até por curiosidade lingüística), anos mais tarde retomei àquela gravação e pensei (num vergonhoso clichê, aqui confessado em letras minúsculas) que talvez Bob fosse 'cerebral' demais....sem emoção....
Pois é. Mas isso foi até "ballad of a thin man".....
A verdade é que eu queria SER o Bob. Pois é, é isso. Eu tenho é inveja dele. Queria ter sido alguém que saiu de casa ainda criança e que mudou de sobrenome sem mais nem menos por se considerar "sem passado". Imagino-me viajando por aí de carona, sem nada na bagagem a não ser o violão, a gaita e o peito aberto... (apesar de não tocar nenhum dos dois e de ter pego carona uma só vez na vida e ter passado metade do caminho rezando o pai nosso..) Adoraria ter sido EU a dar aquele olhar blazé para a platéia incrédula do Newport Folk Festival em 65 que gritava 'Judas!' a cada segundo, com o desprezo genial de quem sabe para onde está indo (e, pior....acertar...a despeito do rancor de quem me vaiava). Aliás, quisera eu ter dissecado aquele moralismo puritano burguês norte-americano em só uma esfrofe:
The hysterical bride in the penny arcade
Screaming she moans, "I've just been made"
Then sends out for the doctor
Who pulls down the shade
Says, "My advice is to not let the boys in"
..e sair rindo...indiferente, enquanto apontava minha metralhadora giratória para outro lado....
Ainda queria mandar todo mundo à merda, inventar uma reclusão no meio do mato e não estar pra ninguém, porra. Queria ser tão sofisticadamente simples como ele.
Eu sei, nunca farei nada disso. Tudo bem. Mas para isso eu tenho o Bob.