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quinta-feira, 8 de julho de 2010

Manifesto à ultrafeminilidade

Eu quero. Acho que tudo começou com um simples "eu quero" para que as coisas em meu espírito fizessem sentido. Passei boa parte da minha adolescência dando murros na mesa e citando Simone de Beauvoir para que talvez nunca tivesse de conseguir ultrapassar a barreira do lugar-comum. Em vão. O lugar-comum não me representa. Desde os anos sessenta, tudo aquilo que constitui a dimensão narcisista da mulher é considerado fraqueza. Coque, combinação, renda, luvas e delicadezas foram substituídos por chapinha, tenis nike, camiseta e competição... muuuuita competição. Nada mais chato. Nós achávamos que para ser iguais em direitos, deveríamos ser iguais em testosterona. Uma lástima.
Depois, nos anos oitenta, a coisa piorou: transformamos exatamente aquilo que considerávamos fraqueza em poder contra os homens. Era o início de uma guerra. Poder e dinheiro, fama e glória, "estar no topo do mundo" (seja lá o que isso signifique) , passaram a ser mantras repetidos por milhões e milhões de mulheres afoitas, que, entre outras coisas, ansiavam à perfeição inatingível e negavam os próprios limites. Mas eu entendo: Precisávamos nos defender contra qualquer tipo de sugestão. Era o começo. Precisávamos experimentar forças. Saber do quê se tratava.
Hoje, o descompasso é tão grande que muitas vezes me pergunto quem é mais machista. Conheço tantas mulheres que não têm consciência da beleza tênue, sólida, forte, prudente e ao mesmo tempo absolutamente descontínua de ser mulher que às vezes até me assusto. A poesia foi morta. Há tempos a poesia foi morta .... todos nós, homens e mulheres, nos tornamos práticos, eficientes e prestativos "ganhadores de dinheiro' sem tempo para o acolhimento, o sonho e a dedicação. a cumplicidade.
Não que eu esteja defendendo à volta aos bobes com redinha. Não! De maneira alguma! Tenho plena consciência das dificuldades enfrentadas por minha mãe e minha avó que fizeram com que eu tivesse a liberdade para me instruir como bem entendesse e pudesse escrever pensamentos sapecas em um blog na internet. (nada é mais importante que liberdade. nada. nem água).
Eu quero o mistério. Quero o sonho e o delírio. Quero o acolhimento e a solidariedade. Quero rir de mim mesma enquanto me perco tentado decifrar um mapa. Quero os detalhes. Quero ser livre para ser quem eu bem quiser, ao invés de me moldar de acordo com o que pensa a “última tendência" da cultura de massa. Quero cuidar daqueles que amo. Quero ter tempo para ouvir as histórias de meus avós e me emocionar com uma carta que veio pelo correio...(tá bom, vai.. vale email.... mas carta tem cheiro.... email não). Quero comer algodão doce na pracinha e jogar dominó com os aposentados. Quero ser o abrigo e a defesa daqueles que sabem a diferença entre dedicação e eficiência. Quero a doçura e a delicadeza. Quero resistência e melodia. Quero flores, muitas flores. De todas as formas, cheiros e cores e quero, principalmente, olhos atentos para saber aprecia-las com a admiração que elas merecem. Nós passamos a vida reclamando e enxergando o pior, mas sejamos honestas: hoje temos tudo aquilo que nossas mães conquistaram e podemos ter ainda mais: a alegria de ser mulher, o prazer de se fazer bonita, a virtude do acolhimento, a novidade da voz aguda e ouvida e a liberdade da escolha. É um feito e tanto. Faça-se erguer sobre uns saltos altos! Celebremo-nos!