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sexta-feira, 15 de maio de 2009

O medo e as mulheres de maio de 68

Estava conversando com um amigo esses dias que disparou no meio da conversa a pérola: "tenho medo de feministas". Pois é.... no mesmo dia recebi de outro amigo um (otimo) video sobre as mulheres antes de maio de 68 e o que a data significa. Aí fiquei pensando em medos. Em porquê meu amigo disse que as temia. Eu, por exemplo, tenho medo pra caramba. De muitas coisas diferentes. Por exemplo: Eu tenho medo de gente fingida. Tenho medo da violência urbana. Tenho (muito!) medo de inércia,de não agarrar as coisas da vida com vontade. Tenho medo de que quebre o carro e eu esteja sozinha, a noite, no meio de uma cidade grande (toc! toc! toc!). Tenho medo que meus alunos não aprendam, ou que saiam da escola pessoas beges, escravinhos do sistema. Tenho medo de, se um dia eu tiver uma filha, ela pense que precisa mostrar a bunda pra ter valor ou ache anorexia normal. Tenho medo de espíritos.... rsrsrsr é ridículo, eu sei, mas morro de medo de ver gente morta. Não tenho medo de barata, lagartixa, aranha ou coisa do gênero. Tenho medo de homem que acha que a mulher "é dele". Tenho medo que o padrão normal feminino vire silicone, botox e cirurgia plástica... tenho medo que as mulheres esqueçam o que é ser mulher. Tenho medo que as mulheres queiram ser cada vez mais pedaços de carne. Tenho medo de mulher que gosta de funk carioca ou de homem fã de mulher "fruta". Tenho medo de mulherengos, violentos, machões e sem noção... Mas de feministas, amigo, sinto muito, eu não tenho medo não.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Flora e Logus

Ele era um menino bom. Ou pelo menos era isso o que diziam dele. O jovem Logus, então com catorze anos, sobrevivia à adolescência como quem passa por um túnel escuro e a vácuo: não respirava, não achava, não fazia, não enxergava, não conhecia quase ninguém. Logus alimentava a alma de rock’n’roll e melodias em inglês, coisa que no recém criado mundinho cool da música eletrônica era quase uma heresia. Descobrira muito cedo, aos onze anos, o poder dos acordes de uma guitarra elétrica e por isso o universo em que vivia era recheado de ‘Slides’, “blends’, ‘tappings’ e tudo mais o que podia devorar e fazer barulho.
Na escola, tinha popularidade bege e não era exatamente alinhado com as matérias do currículum. Meninas, nem pensar. Era tímido, sem jeito, andava com a cabeça na lua e pouca coisa o interessava fora do mundo dos guitarristas geniais na história da música. Por vezes, chegava em casa com o boletim recheado de faltas – levando os pais à loucura – não porque tivesse faltado de fato, mas porque sonhava acordado e esquecia-se de responder à chamada.
Pois então, qual não foi sua surpresa quando, sem mais nem menos, voltou do recreio da escola e encontrou um papel em cor marfim, cuidadosamente dobrado e selado com uma espécie de carimbo, feito com cera de vela - como os que via nas aulas de história - cuidadosamente adornado com uma inicial em vermelho: F. Achou estranho mas começou a abri-lo. O papel era macio e exalava um perfume forte e feminino, doce e quente, estranho, mas atraente. Nele, em grafia de estética antiga, lia-se:

‘Gosto de ti, taciturno. Alegro-me todos os dias ao enxergar tua música. Admiro teu ar fleumático.Flora’

Logus sentiu o rosto ficar quente imediatamente, ficou confuso e percebeu um palpitamento estranho e teimoso. Olhou ao redor em busca de um olhar que lhe explicasse alguma coisa. (What the hell?) Nada. Todos retornavam aos seus lugares, como sempre, de má vontade, preguiçosos e distraídos. O que diabos era ‘taciturno’? E ‘fleumático’? Havia sido ofendido? Deveria ficar com raiva? Era um elogio? Brincadeira? Engano?
A cabeça do garoto rodava sem rumo e ele mal sabia o que sentir, quando, Rodrigo, o nerd da classe, que nunca saía no recreio porque queria continuar estudando, olhou para Logus e disse:
“Foi a louca do 2o ano. Ela entrou rindo, perguntou onde você se sentava, deixou esse papel aí e foi embora do mesmo jeito: Rindo”
A ‘louca do segundo ano’ era quase uma lenda na escola. Chamava-se Ana, mas exigia ser chamada de Flora - o porquê, diga-se, ninguém sabe ao certo – e era o ser humano mais estranho que se tem notícia: usava roupas extravagantes, chapéus, falava palavras que ninguém entendia, vivia carregada de livros, muitos, pesados, leves, novos e velhos, e das mais variadas línguas – e se dizia poeta. Logus, assim, entendia cada vez menos toda aquela história e obsessivamente passou a imaginar o que ela, que era mais velha e não lhe dirigia nunca a palavra, queria afinal com ele, e o que significavam aquelas palavras que escrevera. Logus chegou em casa, e antes mesmo de tirar os sapatos, pegou o dicionário com a fúria dos obcecados e leu:
“Taciturno. adjetivo masculino: calado.
Fleumático. adjetivo masculino: Imperturbável’.
Parou por um instante. Pensou no bilhete. Então não era engano. Acabava de descobrir que a louca, por assim dizer, o tinha observado e possuía uma ‘queda’ por seu jeito alheio à tudo e a todos. Um susto.
No dia seguinte, o garoto chegou à escola disposto a esclarecer tudo aquilo. Passara a noite em claro, formulando perguntas que faria à garota na hora do recreio e por via das dúvidas resolveu levar consigo o dicionário na mochila em caso de receber uma resposta ‘enigmática’. Chegou, meio sonolento e cansado, e percebeu que mais uma vez havia um papel marfim selado em vermelho em cima de sua carteira. Sentiu um frio na barriga. Sorriu de leve e abriu o papel. Nele se lia:
“Rubicundo, sei que sou loquaz e às vezes me exacerbo. Sei também que teus pais saem para a labuta diária e tu ficas sozinho durante as tardes. Visitar-lhe-hei hoje por volta das quatro. Espere-me. Flora”
Veja bem. Aquilo já era demais. O que poderia então pensar de tudo aquilo? How the hell ela sabia que seus pais saiam à tarde? Por que ela o visitaria? O que era rubi...rubi-não-sei-o quê?
Nunca o relógio demorou tanto a passar. Logus suava e mexia com as mãos nervosamente e na verdade não sabia se acreditava na realidade da suposta visita. Olhou o dicionário por pelo menos seis vezes na tentativa de extrair mais alguma coisa, uma pista que fosse, naquelas palavras. Quatro horas. A campainha toca. Era Flora:
“Olá taciturno. Eis-me, finalmente”
Flora vestia uma saia longa, verde e roxa, florida e meio rodada, uma blusa branca e justa que deixava seus ombros de fora, e um colete jeans por cima dela. Tinha uma bolsa a tiracolo atravessando o peito e usava uma espécie de sandália baixa cujo feicho se estendia até o tornozelo. Entrou, sentou-se, e olhando fixamente para o perplexo e ainda confuso garoto, disse:
“Sei que está confuso, mas vim explicar- te. Acho que a arte nos une. Você com sua música e eu com minha poesia. Por isso, vim dar-te um presente. Venho com a intenção de prelibar-te. Vim transformá-lo em homem, para que sua arte cresça, evolua e possa fazer de mim sua musa. Seremos a inspiração, assim, um do outro. O que pensas?”
Logus correu para o quarto de dormir com a desculpa que ouvira um barulho estranho. Pegou novamente o dicinário: Ela havia ido para fazer.. o que? Preli... prelibar? É isso?
Prelibar. Verbo transitivo. Provar.Pregustar.
Voltou para a sala, então, ainda mais confuso. A garota então viera ‘provar-lhe’? Transformar-lhe em homem? O quê?! Logus ainda tentava entender alguma coisa quando percebeu que a garota lhe esperava agora usando apenas lingerie de seda. O garoto levou um susto considerável, olhou para aquela cena surreal sem conseguir pronunciar uma palavra, e assim, de sopetão, sem saber direito o que fazia, ajoelhou a sua frente e lhe deu um beijo. Flora, então, anunciou:
“Não te iludas taciturno. Vou amar-te por um dia, ensinar-te o que é o sentir, acabar com teu incólume e faccioso mundo para abandonar-te para sempre. Quero que sofras, que te desespere, pois sem sofrimento não há estreme, genuína arte. Vim ajudar-te e só. Nada mais.”
Assombro. Logus deu-se àquela jovem estranha como nunca havia feito antes. Verdade seja dita: ele nunca havia estado com uma mulher e aquela era a maior experiência que poderia desejar, então. Ela o amou com fúria e o fez sentir cada segundo. Ele tremia e rangia os dentes, e passou a desejar aquela mulher incomum como ninguém. Logus a olhou enlevada, em delírio, e apaixonou-se imediatamente pela novidade da força bruta de vida que levava dentro de si. Amou o delírio, a perturbação, as palavras difíceis que o faziam querer saber mais e a poesia rude que ela exalava. Amou a loucura, a irracionalidade, a insensatez, o ato impensado que ela o trazia.
Assim foi que o garoto descobriu o sentir, e reparou que uma lágrima, tímida e honesta descia em seu rosto. Cansado, exaurido, deitou-se de lado, ainda nu, contemplando aquele pitoresco ser e adormeceu. Flora levantou-se e saiu, sem olhar para trás deixando seu agora ex-amado ao léu dos que provaram a plenitude para depois serem levados ao desespero do abandono, ao pesadelo dos que sabem que aquele momento nunca voltará. Adormeceu. A vida lhe havia sido apresentada. Quando acordou o dicionário ainda estava lá.

Uma de suas Bacantes

Não há como conhecer Dionísio sem entrar em sua dança. E eu, em loucura e despedaçamento, acabei por esboçar meus passos sem que percebesse, embevecida pela marginalidade do êxtase que me assustara, mas que teimei em beber. Assim me tornei uma de suas bacantes, enlevada, encantada, arrebatada num indissolúvel transe. Em vão. Ainda era engolida pela força do despeito e pesar austero que inflamam todos os meus castigos, aqueles me seguram pelas pontas dos cabelos e fazem do jugo, da sujeição, uma brincadeira de mau gosto. Eu, que já urgi ao demônio por uma leva de púrpura para aquietar as vísceras, chorei de receio por não saber reagir aos ritmos em sua celebração, no conflito resultante entre a deidade adventícia que pretende ser celebrada numa terra nova e a casa reinante que a considera uma força subversiva aos costumes.
Lembro-me do terror infundado que me pincelava os ouvidos como um sussurro impertinente de insetos enquanto se tenta dormir, e da sensação de tremor, enlevo e desgraça por ter finalmente desanuviado a atmosfera ao meu redor. Êxtase e medo em minha nuca, arroubamento e pedaços em meu dorso, enlevamento e receios em minhas pernas; embevecimento e susto em minha boca. Assombro. Não há como conhecer Dionísio sem entrar na sua dança.