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sexta-feira, 1 de maio de 2009

Flora e Logus

Ele era um menino bom. Ou pelo menos era isso o que diziam dele. O jovem Logus, então com catorze anos, sobrevivia à adolescência como quem passa por um túnel escuro e a vácuo: não respirava, não achava, não fazia, não enxergava, não conhecia quase ninguém. Logus alimentava a alma de rock’n’roll e melodias em inglês, coisa que no recém criado mundinho cool da música eletrônica era quase uma heresia. Descobrira muito cedo, aos onze anos, o poder dos acordes de uma guitarra elétrica e por isso o universo em que vivia era recheado de ‘Slides’, “blends’, ‘tappings’ e tudo mais o que podia devorar e fazer barulho.
Na escola, tinha popularidade bege e não era exatamente alinhado com as matérias do currículum. Meninas, nem pensar. Era tímido, sem jeito, andava com a cabeça na lua e pouca coisa o interessava fora do mundo dos guitarristas geniais na história da música. Por vezes, chegava em casa com o boletim recheado de faltas – levando os pais à loucura – não porque tivesse faltado de fato, mas porque sonhava acordado e esquecia-se de responder à chamada.
Pois então, qual não foi sua surpresa quando, sem mais nem menos, voltou do recreio da escola e encontrou um papel em cor marfim, cuidadosamente dobrado e selado com uma espécie de carimbo, feito com cera de vela - como os que via nas aulas de história - cuidadosamente adornado com uma inicial em vermelho: F. Achou estranho mas começou a abri-lo. O papel era macio e exalava um perfume forte e feminino, doce e quente, estranho, mas atraente. Nele, em grafia de estética antiga, lia-se:

‘Gosto de ti, taciturno. Alegro-me todos os dias ao enxergar tua música. Admiro teu ar fleumático.Flora’

Logus sentiu o rosto ficar quente imediatamente, ficou confuso e percebeu um palpitamento estranho e teimoso. Olhou ao redor em busca de um olhar que lhe explicasse alguma coisa. (What the hell?) Nada. Todos retornavam aos seus lugares, como sempre, de má vontade, preguiçosos e distraídos. O que diabos era ‘taciturno’? E ‘fleumático’? Havia sido ofendido? Deveria ficar com raiva? Era um elogio? Brincadeira? Engano?
A cabeça do garoto rodava sem rumo e ele mal sabia o que sentir, quando, Rodrigo, o nerd da classe, que nunca saía no recreio porque queria continuar estudando, olhou para Logus e disse:
“Foi a louca do 2o ano. Ela entrou rindo, perguntou onde você se sentava, deixou esse papel aí e foi embora do mesmo jeito: Rindo”
A ‘louca do segundo ano’ era quase uma lenda na escola. Chamava-se Ana, mas exigia ser chamada de Flora - o porquê, diga-se, ninguém sabe ao certo – e era o ser humano mais estranho que se tem notícia: usava roupas extravagantes, chapéus, falava palavras que ninguém entendia, vivia carregada de livros, muitos, pesados, leves, novos e velhos, e das mais variadas línguas – e se dizia poeta. Logus, assim, entendia cada vez menos toda aquela história e obsessivamente passou a imaginar o que ela, que era mais velha e não lhe dirigia nunca a palavra, queria afinal com ele, e o que significavam aquelas palavras que escrevera. Logus chegou em casa, e antes mesmo de tirar os sapatos, pegou o dicionário com a fúria dos obcecados e leu:
“Taciturno. adjetivo masculino: calado.
Fleumático. adjetivo masculino: Imperturbável’.
Parou por um instante. Pensou no bilhete. Então não era engano. Acabava de descobrir que a louca, por assim dizer, o tinha observado e possuía uma ‘queda’ por seu jeito alheio à tudo e a todos. Um susto.
No dia seguinte, o garoto chegou à escola disposto a esclarecer tudo aquilo. Passara a noite em claro, formulando perguntas que faria à garota na hora do recreio e por via das dúvidas resolveu levar consigo o dicionário na mochila em caso de receber uma resposta ‘enigmática’. Chegou, meio sonolento e cansado, e percebeu que mais uma vez havia um papel marfim selado em vermelho em cima de sua carteira. Sentiu um frio na barriga. Sorriu de leve e abriu o papel. Nele se lia:
“Rubicundo, sei que sou loquaz e às vezes me exacerbo. Sei também que teus pais saem para a labuta diária e tu ficas sozinho durante as tardes. Visitar-lhe-hei hoje por volta das quatro. Espere-me. Flora”
Veja bem. Aquilo já era demais. O que poderia então pensar de tudo aquilo? How the hell ela sabia que seus pais saiam à tarde? Por que ela o visitaria? O que era rubi...rubi-não-sei-o quê?
Nunca o relógio demorou tanto a passar. Logus suava e mexia com as mãos nervosamente e na verdade não sabia se acreditava na realidade da suposta visita. Olhou o dicionário por pelo menos seis vezes na tentativa de extrair mais alguma coisa, uma pista que fosse, naquelas palavras. Quatro horas. A campainha toca. Era Flora:
“Olá taciturno. Eis-me, finalmente”
Flora vestia uma saia longa, verde e roxa, florida e meio rodada, uma blusa branca e justa que deixava seus ombros de fora, e um colete jeans por cima dela. Tinha uma bolsa a tiracolo atravessando o peito e usava uma espécie de sandália baixa cujo feicho se estendia até o tornozelo. Entrou, sentou-se, e olhando fixamente para o perplexo e ainda confuso garoto, disse:
“Sei que está confuso, mas vim explicar- te. Acho que a arte nos une. Você com sua música e eu com minha poesia. Por isso, vim dar-te um presente. Venho com a intenção de prelibar-te. Vim transformá-lo em homem, para que sua arte cresça, evolua e possa fazer de mim sua musa. Seremos a inspiração, assim, um do outro. O que pensas?”
Logus correu para o quarto de dormir com a desculpa que ouvira um barulho estranho. Pegou novamente o dicinário: Ela havia ido para fazer.. o que? Preli... prelibar? É isso?
Prelibar. Verbo transitivo. Provar.Pregustar.
Voltou para a sala, então, ainda mais confuso. A garota então viera ‘provar-lhe’? Transformar-lhe em homem? O quê?! Logus ainda tentava entender alguma coisa quando percebeu que a garota lhe esperava agora usando apenas lingerie de seda. O garoto levou um susto considerável, olhou para aquela cena surreal sem conseguir pronunciar uma palavra, e assim, de sopetão, sem saber direito o que fazia, ajoelhou a sua frente e lhe deu um beijo. Flora, então, anunciou:
“Não te iludas taciturno. Vou amar-te por um dia, ensinar-te o que é o sentir, acabar com teu incólume e faccioso mundo para abandonar-te para sempre. Quero que sofras, que te desespere, pois sem sofrimento não há estreme, genuína arte. Vim ajudar-te e só. Nada mais.”
Assombro. Logus deu-se àquela jovem estranha como nunca havia feito antes. Verdade seja dita: ele nunca havia estado com uma mulher e aquela era a maior experiência que poderia desejar, então. Ela o amou com fúria e o fez sentir cada segundo. Ele tremia e rangia os dentes, e passou a desejar aquela mulher incomum como ninguém. Logus a olhou enlevada, em delírio, e apaixonou-se imediatamente pela novidade da força bruta de vida que levava dentro de si. Amou o delírio, a perturbação, as palavras difíceis que o faziam querer saber mais e a poesia rude que ela exalava. Amou a loucura, a irracionalidade, a insensatez, o ato impensado que ela o trazia.
Assim foi que o garoto descobriu o sentir, e reparou que uma lágrima, tímida e honesta descia em seu rosto. Cansado, exaurido, deitou-se de lado, ainda nu, contemplando aquele pitoresco ser e adormeceu. Flora levantou-se e saiu, sem olhar para trás deixando seu agora ex-amado ao léu dos que provaram a plenitude para depois serem levados ao desespero do abandono, ao pesadelo dos que sabem que aquele momento nunca voltará. Adormeceu. A vida lhe havia sido apresentada. Quando acordou o dicionário ainda estava lá.