Era um noite de chuva sem graça como tantas que nos atropelam durante o verão. Augusto, como de costume, calçava um par de meias azuis escuras de lã velha e surrada enquanto tocava gaita e assistia ao resultado da Loto no telejornal antes de dormir. Era apenas mais uma contradição entre tantas que envolviam esse homem cuja vizinhança tanto estranhava: Augusto gostava de sonhar alto e dormir com meias de lã em dias acalorados, e nunca comprava um novo par. Usava o mesmo há anos. Os amigos do trabalho já estavam, inevitavelmente, acostumados às esquisitices do caipira recém transformado atendente de telemarketing na cidade grande. Trinta e dois anos, ficando meio calvo, quieto, sonhador, e quase sempre maltrapilho: os colegas costumavam fazer de Augusto o motivo das piadas em todo Happy Hour. Contavam estórias antológicas – e mentirosas - de como esse estranho hábito começara, e descreviam com precisão a suposta coleção do colega - pares e pares de meias azuis surradas, quentes, mal cheirosas, cada vez mais estranhas...
Mas eis que, naquela noite, acompanhado da televisão ainda em preto e branco, cheia de chiados e interferências, de um irritante e enferrujado ventilador de teto e do vira-latas que o acompanhava há mais tempo que os lendários pares de meias, Augusto recebeu a maior notícia de toda sua significativa existência: Naquele momento, em 21 de fevereiro de 2006, Augusto tornou-se um milionário: Loto. Números. Bilhete. Números... Números!!! Chiados..... muitos chiados...Oh deus.... estou ouvindo corretamente? Não pode ser! Números!!!! Adeus periferia, adeus telemarketing, adeus ventilador lazarento que faz barulho e não refresca.... Adeus assoalho indigno, mesas desniveladas... vida nova... vida nova!!
A notícia, previsivelmente, espalhou-se como um raio: Em poucas horas, uma verdadeira multidão se empurrava na frente de sua casa, num misto de curiosidade e histeria, como se fosse preciso atestar que uma história dessas fosse possível. Augusto, o sortudo, o homem da vez, o novo bom partido da cidade, passou a dar entrevistar, conselhos, palpites. Todos queriam ouvir suas piadas, suas histórias, saber o porque do jovem milionário usar meias de lã durante o verão (esses milionários excêntricos...). Começou a receber convites, a freqüentar festas, a conhecer gente importante e descolada. Augusto, quem diria, passou a ser bonito, a ter várias namoradas.
Mas então, quando tudo parecia um oceano de sorte e oportunidades, Augusto conheceu Ana. Deixe-me explicar direito, antes que o leitor ingênuo se alegre: isso não é uma história de amor. Ao contrário. Isto é mais um dos muitos tapas na cara que a vida no dá.
Ana era, por assim dizer, uma socialite. Nascida e criada na fina flor da sociedade paulistana, nunca precisou trabalhar um dia sequer mas se dizia ‘uma garota de eventos’, presença obrigatória nas colunas sociais da cidade, nos lugares mais disputados, nas festas mais badalas. Ana era longilinea, tinha voz forte e falava depressa, enquanto gesticulava bruscamente. Era o tipo de pessoa que sabe de tudo antes, da próxima novidade, do próximo lançamento, da próxima moda.
Augusto e Ana se conheceram em uma festa para o lançamento de um novo carro de uma marca de luxo: Ana trajava um vestido vermelho sangue e sandálias cor de ouro, e era como o raio de sol iluminando o ambiente noturno e sisudo da festa ‘da vez’. Ele se encantou com a latitude de suas pernas. Ela achou graça no jeito caipira do rapaz que já era famoso pela sorte que tinha. Ela, então, entrou na vida de Augusto como um autêntico Pollock: aparentemente delicado, mas, na verdade, um soco na cara. E sabem como são as mulheres com seus amores: Em menos de um mês, Augusto teve de cortar o cabelo, trocar o guarda-roupa, comprar um bichano com nome composto no registro, trocar o carro, a casa, a vida, os hábitos alimentares. Augusto agora era o felizardo possuidor de uma coleção invejável de pares de meia em pura lã escocesa, macia e confortável, e parou de tocar gaita por pura falta de tempo. Ana o introduzia à alta sociedade, aos grandes negócios e à vida de bon vivant que ele um dia sonhara. Augusto se entregou de ‘peito aberto’, como dizem, e nem estranhou que à medida que seu relacionamento crescia, ela queria mais: mais compras, mais festas, mais mudanças em Augusto, mais viagens, mais compras, mais dinheiro, mais mudanças, ainda mais mudanças, mais compras, mais festas. Mais. Mais.Sempre mais.
Até que um dia o dinheiro acabou.
Augusto não sabia lidar com essas coisas de grandes fortunas, lembremos. E, pensando bem, sempre que me lembro dele, sinto uma espécie de compaixão que me traz uma certa melancolia. Com-paixão, a palavra, vem do latim, e quer dizer sofrer junto, como se fosse possível entrar na miséria de outrem e partilhar um pouco da dor em si.
Ana Carolina Magalhães casou-se com um figurão do mercado financeiro, velho conhecido da família, depois de reencontra-lo em uma viagem à Grécia, dois dias depois de terminar o romance. Augusto voltou a morar no interior, sozinho com seu vira-latas, a tocar gaita com meias de lã no verão e nunca mais falou com ninguém.
(baseado em fatos reais, beibe)
quarta-feira, 18 de março de 2009
O homem da vez
Postado por Christina Zaccarelli às 21:26
