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sexta-feira, 27 de março de 2009

A agonia e o arte-fício



'Há muitos séculos, em um ponto perdido do universo, banhado pelas constelações de inúmeras galáxias, houve um dia um o planeta habitado por animais inteligentes inventaram o Conhecimento. Foi o instante mais arrogante e mais mentiroso da história do universo, mas foi apenas um instante. Depois de alguns suspiros da natureza, o planeta congelou e os tais animais inteligentes tiveram que morrer.'
Nietzche escreveu isso no fim do século passado, querendo dizer que, por trás da busca racional da verdade,mora o desejo de morte, de esgotamento da vida por um letal 'explicação' para tudo.
Hoje, por sua vez, vemos o descompasso entre o avanço científico e as humanidades, entre a terrível convivência entre as sondas espaciais e o massacre de civis na Africa, a crise pavorosa do capitalismo que se pensava moderno e na verdade não passa de uma primitiva acumulação sem sentido.
A agonia da arte é só mais uma prova do crime pós moderno, a prova de que essa revolução virtual leva ao suicídio da transcendência e à estúpida coisificação dos homens, agora mercadorias mecanizadas. Temos de um lado a massificação de Hollywood, dos teatrões caretas e dos best-sellers; Do outro, a solidão melancólica das exposições contemporâneas dominadas pelo lobby dos curadores. Mas ainda precisamos de arte, como uvas e frutos e danças para Dionísio, pois a ciência e a razão esperam chegar aos 'ossos' da essência, um engodo. Nietzche riu dessa pretensão dizendo "A ilusão é a essência em que o homem se criou".
Para ele a arte é a ilusão resignada, a clareza feliz de que a aparência é o lugar do humano e essa é a única hipótese de felicidade num planeta gelado (a arte, explico-me, como embelezamento da vida, como criação existencial para que se esqueça a finitude da vida, ou melhor, para assumí-la, agarrá-la e dançá-la, que, afinal, é o único jeito possível.)
Pois a arte se esqueceu disso. E é aí que mora o problema: O conceito de 'experimental' não pode ficar restrito aos lugares comuns do sofrimento, da descontrução, da autodestruição. Me parece que hoje os artistas vivem uma espécie de saudosismo do inicio do século XX, quando a aura da arte não havia sido atropelada pelo cientificismo e se vêem como profetas abandonados - Antigamente, o artista de vanguarda chocava a classe média. Hoje, a classe média choca o artista de vanguarda: É muito bizarro que frases ditas por Mallarmé ('estamos tentando romper com as normas') sejam usadas como slogan em anúncio do Mc Donald's.
Claro que se se observar a obra de Nuno Ramos ou Vick Muniz há de se ver aquela fome vital, a angústia apaixonada da arte, e a acusação contra o golpe do mundo contemporâneo. Eles riem, brincam com esse mundo, o satirizam e criam um resultado paródico, cínico até, mas que acaba celebrando a vida, fugindo do esterióripo da autodestruição artística (ou o 'complexo de Bukowsky' como costumo carinhosamente o chamar rsrsrsr).
Como disse (o ensaísta) Brad Holland: 'Onde estão os artistas?'. Pense bem: Quando o maior rebelde das artes do século, Picasso, é usado para catapultar vendas de automóvel, é sinal que a arte deixou de ser arte há muito tempo.