
Deve ser culpa do João Gilberto. Desde que Alegria se tornou a melhor coisa que existe, os sorrisos que eram só sorrisos passaram a ser risonhos mesmo quando não o fossem.
O carnaval é, então, previsivelmente, o ápice disso tudo. Que sejam amarelos, de paisagem, a la Sandy, Xuxa, ou qualquer coisa do gênero, coitado daquele que se atrever a dar uma de comedido em tempos de ziriguidum. Carnaval é mais que histeria coletiva. É histeria OBRIGATÓRIA. Como se todas as mulheres desse país se travestissem de Suzana Vieira pós Marcelo-PM e tivessem de sair por aí, aos pulinhos, para provar que tudo está 'ótimo'.
Aliás, em matéria de felicidade aparente, a lista é farta e a espotaneidade, nem tanto. E isso chega a ser bizarro. Um bom exemplo disso é o discurso da mãe da menina Eloá, pivô da história televisiva mais comentada desde a era Mesozóica, ao ser entrevistada logo após a tragédia. Palavras da mãe:
"Eu perdoo esse garoto. Eu sei que minha filha está com Deus, e EU ESTOU FELIZ".
Isso me faz pensar em como nós, cidadãos do país pós-João Gilberto nos relacionamos com a felicidade. Ou a idéia dela. Na lista dos livros mais vendidos no país, divulgada nessa semana pela revista Veja, encontram-se títulos como: "casais inteligentes enriquecem juntos", "a história da felicidade", "nunca desista de seus sonhos", "Jesus, o maior psicólogo que ja existiu", e, é claro, "O Segredo" (conhecida praga editorial escrita pelo capeta, assegurando que a tal felicidade é obra da 'força do pensamento').
A busca por essa felicidade histérica e permanente é tão útil e madura quanto sair correndo em círculos para alcançar o próprio rabo. De uma vez por todas: Não existe felicidade. Ou melhor, até existe - se você for supérfluo, cego e raso o sufiente para ignorar o outro lado da vida. A 'felicidade' é essa coisa besta e imprestável vendida por milhoes de dólares mundo afora: carreira de sucesso, familia feliz, corpo perfeito, dinheiro no bolso, carrão na garagem... aquele padrãoZÃO que todo mundo conhece.
Quanto a mim , pessoa invariavelmente medíocre e frequentemente infeliz (graças a deus), continuo achando que mais vale uma boa melancolia Coltraneana do que um sorriso Palitos Gina... ainda prefiro encarar a nevasca da vida de frente, despida, trêmula e muitas vezes com medo e inquieta, a fingir (mesmo pra mim mesma) que tudo está 'ótimo', que se deve 'levantar a cabeça' e o que vale é o 'ser feliz'.
Nada é tão entediante que essa "felicidade". Espero profundamente que a existência (a sua, e a minha) seja muito mais INTERESSANTE que isso.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
O carnaval, a felicidade e os palitos Gina
Postado por Christina Zaccarelli às 11:25
