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segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Comprei um kilo de farinha, pra fazer farofa


Se tem uma coisa que me desanima no planeta terra é a vulgaridade. Sério. Não quero dar uma de arrogante, aliás, longe disso, mas não suporto mesmo, fazer o quê. Explico: Estou em Ubatuba, litoral norte de São Paulo, durante as festas de fim de ano e ‘estou’ vizinha de uma casa com 8 homens que passam o dia enchendo a cara, gritando, e ouvindo sertanejo no último volume. (eu sei que ir à praia nas festas de fim de ano, também, é procurar por isso) Não dá. A situação (incluindo a chuva que nos obriga a fica em casa) está me irritando consideravelmente, mas, no Brasil, se você reclama de um direito seu, é chato. Eu não sou chata. Apenas respeito os outros e gosto de ser respeitada. E ponto.
Ah, mas eu reclamei. E by the way, não adiantou nada. Eles continuam no mesmo jeito, gritando e ouvindo música alta ("música" é modo de dizer... continuam ouvindo sertanejo)
Isso me faz pensar sobre a vulgaridade. Primeiramente embalada por esse episódio, mas também por ter visto, na revista Veja, a eleição da ‘Mulher Melancia’ como um dos destaques do ano. Assustei. Sou eu, ou esse mundo está ficando vulgar demais?
E o que é, afinal, a vulgaridade?
Bem, eu não caio na armadilha de achar que aquilo que é considerado refinado, ‘chique’, feito de e para a elite é o ‘modelo’, e o popularesco, vulgar. Longe de mim. Aliás, eu acho bem vulgar esse negócio de esfregar artigo de luxo na cara de quem não tem nada, bancar o milionário em país de terceiro mundo. É vulgar demais a ostentação.
Também não penso que o não-vulgar segue o recato. Nudez pode ser vulgar, ou não. A mulher melancia mostrando a bunda na playboy é vulgar. A Leila Diniz posando nua, não.
Hum... será que vulgaridade tem a ver com finalidade? Pensando: A Mulher melancia mostrando o útero em revista masculina tem a ver com mulher objeto, com submissão, com sexismo. A Leila Diniz posando nua tem mais a ver com libertação com o corpo feminino, com ir contra a maré do moralismo que, por incrível que pareça, não ficou restrito àquela era, ainda está entre nós.
A Dercy enfiando palavrões a cada 10 segundos, em tudo que fala, pra deus e todo mundo, é vulgar. O Tom Zé mandando o Caetano ‘tomar no cu’ é provocador, contestador.
O meu vizinho ouvindo Sertanejo pro condomínio inteiro ouvir, é vulgar. É desrespeitar, invadir o lugar do outro. O meu outro vizinho fazendo barulho porque está aprendendo tocar um instrumento musical, não.
Aliás, voltando à Leila Diniz, a gente tem mania de falar de ‘essa’ ou ‘aquela’ mulher é vulgar, (na maioria das vezes, por mostrar o corpo), mas às vezes a gente se esquece que homem também pode ser. E muito. Homem que chama mulher bonita de ‘mina gostosa’, que diz que ‘pega’ e coisas afins, que adora declamar toda sabedoria no ramo do machismo mundano e trata mulher como objeto, pra mim, é vulgar demais. Demaaais. E mal educado. Alias, isso sim é vulgar. A ‘mulher melancia’ vive num mundo em que a mídia (essa também vulgar, por nivelar todo mundo por baixo) faz acreditar que a única chance de ascensão social pra mulher de periferia é através da vulgaridade. E pior, que ser objeto é elogio. Que ser ‘coisa’ é a melhor ‘coisa’ que lhe pode acontecer.
É bom também lembrar que vulgaridade e falta de educação não são sinônimos, apesar de que é mais difícil ser vulgar quando você é ‘educado’ a respeitar. Alguém que não teve acesso à essa educação pode muito bem passar longe da vulgaridade, mas, sempre, para se esbaldar no vulgar, é só ser mal educado com alguém.
E qual o contrario de ‘vulgar’? O senso comum diz‘elegante’. Duvido. Eu conheço muita coisa (e gente) que nunca passaria pelo crivo da tal ‘elegância’ (conceito difícil) e ao mesmo tempo passa a anos luz da vulgaridade. Exemplo: A prosa do Guimarães Rosa com todos os seus ‘diminutivim’ nunca será ‘elegante’. Mas vulgar, meu bem, também não (Aliás, falar ‘meu bem’ é vulgar pra caramba. Rsrsrsrs). Outros exemplos: musica folk, mano chao, o próprio Tom Zé...
Será que o contrário de ‘vulgar’ é ‘autêntico’?
Política também pode ser vulgar. Hugo Chavez é. César Maia também. Todas as políticas ‘lavagem cerebral’, sem dúvida. Todo populismo em si.
Não sei qual (e se existe) solução para isso. Estava prestes a declamar o chavão ‘educação é a solução’, mas, pensando bem, convenhamos, nem sempre a educação vence o vulgar. E nem sei se é para vencer. Vai ver que a errada aqui sou eu, escrevendo em uma tarde de sol, ao invés de tomar cerveja, gritar e ouvir sertanejo com meus novos vizinhos.