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segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Porque eu adoro o Lula. – 29/12/2008


Este não é um texto sobre política. A idéia me surgiu durante uma conversa, há pouco, enquanto jantava com a família e discutíamos educação. Tentávamos nos lembrar das rígidas regras a que fomos submetidos na escola (alemã) e ao tipo que pedagogia tradicionalista que nos era ensinada. Eu, meu irmão, e, coincidentemente, minha cunhada (Dani) freqüentamos a mesma escola.
Assim, durante a conversa, Dani lembrou-se de um episódio que, para mim, como professora nos dias de hoje, beira o bizarro. Certa vez, enquanto freqüentava a antiga segunda série do ensino fundamental, a coordenadora pedagógica chamou sua mãe para uma reunião - Dani estava tirando notas baixas em matemática – e, por isso, uma espécie de diagnóstico de suas habilidades escolares fora feito por sua professora. Relato, aqui, entre aspas, a fala da coordenadora para a mãe dela, exatamente como nos relatou:

“Olha, nós desistimos. Sua filha não consegue aprender matemática. E nunca vai aprender. Ela simplesmente não consegue entender e não há mais nada a ser feito. Ela tem que se enquadrar. Seria bom contratar uma professora particular.”

Muito bem. Não vou nem entrar no mérito da atitude da escola, porque, obviamente, a considero no mínimo IMORAL, antiética, desrespeitosa e ainda por cima, preguiçosa e medrosa, e, portanto, muitas outras questões deveriam ser discutidas.
Mas este também não é um texto sobre educação.
A primeira coisa que me passou pela cabeça ouvindo estes (e outros) absurdos pedagógicos, claro, foi “mas por que, meu deus, nossos pais nos colocaram em uma escola dessas? Por que os pais de Dani, diante de uma atitude dessas, simplesmente não encontraram uma escola melhor?”

Esse texto é sobre o brasileiro e a mentalidade de país ‘colônia’.

Até pouquíssimo tempo atrás, qualquer besteira estrangeira tinha um valor inestimável. Lembro-me muito bem dos tempos em que o sonho de qualquer adolescente era ganhar presente importado, seja chiclete, canetas do Mickey Mouse, tênis, jeans, cds, eletrônicos, ou qualquer outra coisa.
Todavia, num belo dia, o país começou a se abrir ao mercado externo. Para o bem ou para o mal. Em pouco tempo, todas aquelas bugigangas maravilhosas que antes eram acessíveis apenas para alguns, começaram a ser vendidas na padaria da esquina. E por preços muito menores. Assim, quem nunca havia comprado os tais objetos do desejo, passou a fazer parte do gigantesco mercado global , engolidor de qualquer novidade que soasse como primeiro mundo.
Mas então, num piscar de olhos, assim, sem aviso, começamos a perceber que nem tudo que vinha de fora é melhor do que produzimos aqui. Começamos a perceber que, talvez, o doce de leite de colher feito em Minas Gerais dá muito mais água na boca que uma barra de chocolate Kiels. E que, meu, honestamente, manteiga de amendoim é ruim pra c........
Há muito pouco tempo, se um alemão nos dissesse que o jeito nosso de educar os filhos é errado, acreditaríamos. Se um francês insinuasse que nossos hábitos são informais demais, que somos barulhentos e, portanto, deselegantes, engoliríamos o choro e baixaríamos a cabeça. Se um norte americano dissesse que não sabemos trabalhar, trataríamos de aprender com ele.
Pois bem. É claro que a questão é muito mais complexa do que a manteiga de amendoim, mas algo de muito importante aconteceu na cultura brasileira, para que nós, brasileiros de todas as raças e extratos sociais, elegêssemos aquele cabra que conta piada em discurso, não se dá bem com concordância verbal e fala com os homens mais poderosos do mundo como se estivesse na cozinha lá de casa. Nós somos o único país do mundo cujo povo chama o presidente pelo apelido. Já notaram? Alguém aí chama o presidente de ‘Sua Excelência, o Sr. Silva’?
Pois é. É por isso que eu adoro o Lula. De repente, descobrimos que nosso jeito de educar nossos filhos é apenas diferente do jeito deles. Descobrimos que nossa informalidade não é falta de elegância, é espontaneidade, e que, no final das contas, é muito mais legal andar com alguém que conte piadas, do que com alguém que saiba usar o talher de peixe. Para nós, é assim. Para eles, não. E tudo bem.
É claro que ainda temos um longo caminho pela frente. Acabo de ler ‘malas prontas’ de Danuza Leão, por exemplo, muito motivada pelas ótimas colunas que ela escreve na Folha, e percebi que, assim como milhares de brasileiros, Danuza defende a elegância francesa, a eficiência alemã, a formalidade britânica, o pragmatismo norte americano.....
Em tempo: É bom que se esclareça, também, que este texto não é uma ode ao provincianismo. Aliás, tão boboca quanto o cara que copia o estrangeiro, é o patriota xiita que se veste de cangaceiro na Avenida Paulista ‘porque é nacional’. Ao contrário: o que adoro no Lula, o que admiro, é o espírito de continuar lá, aprendendo com eles, sim, mas sem achar que eles também não tem nada a aprender com a gente. E tem. E muito.
Não há nada de errado com o espontâneo. Com nosso jeito de ser, de falar, de sentir, de pensar o mundo. Acho Paulo Freire o mais humano dos educadores (e Frenet, claro, um mestre), a Camila Pitanga, linda (e a Heidi Klum, deslumbrante), a (ex ministra) Marina Silva, elegantééééérrima (e a Michelle Obama, também), o Zé Simão, hilário (o Jon Stewart, genial!). Ainda acho os tropicalistas maravilhosos (e o Punk, revolucionário), a Bossa Nova uma obra prima (e o Jazz, uma delícia), o Darcy Ribeiro nosso pai saudoso ( e o Levi Strauss, obrigatório) .
E continuo achando babaca ficar imitando gringo só pra ser chique.
Acho que perfeitamente possível vislumbrar NOSSO modelo de desenvolvimento. Acho perfeitamente possível criarmos NOSSO jeito de resolvermos os problemas, longe do estereotipo burro da mulher brasileira fácil e vulgar, do homem ‘latin lover’, do ser tropical alegre e preguiçoso. Acho perfeitamente possível que moda ‘Lulinha way of life’ pegue na elite de vez. Nem que Lula, o político, seja execrado por eles depois. Um dia vamos descobrir que chique mesmo, Danuza, são brincos de capim dourado do Serrado, ornamentando um pescoço moreno, legitimamente miscigenado, e que não deve nada a ninguém.