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sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

O conto do amor



Como estou em férias, aproveito o tempo livre para colocar algumas leituras em dia, aquelas que a gente adoraria, mas nunca dá tempo durante o ano.


Essa semana (na segunda feira, para ser mais exata) comecei a ler "O conto do amor" do meu colunista favorito da Folha de São Paulo, Contardo Calligaris, que, na verdade, foi lançado há uns bons meses, mas só tive tempo de ler agora.


Bem, em primeiro lugar, quem conhece a escrita suave e ao mesmo tempo incisiva de Contardo sabe que não há de se esperar nada a não ser coisa muito boa em seu primeito 'atrevimento' em romances. Pois bem. Dito isso, tenho que confessar minha tietagem: comecei a lê-lo no fim da tarde e não VIVI enquanto não o terminasse. Acabei a estória à noite, em um estado quase histérico, completamente extasiada.


A trama, para quem não sabe, é assim: um psicanalista italiano que mora em Nova York ouve de seu pai, em seu leito de morte, uma confissão um tanto estranha: ele (o pai) em uma visita à Toscana, nos seus 20 anos, encontra um afresco no Monte Oliveto Maggiore feito por Sodoma e declara ao filho que teve a impressão de ter sido um dos ajudantes do pintor renascentista em uma vida passada. Assim, com vontade de desvendar o mistério confessado pelo pai (que para uma estranheza maior ainda, se dizia ateu e não acrediatava em nada) Carlo Antonini parte para uma série de viagens entre o monte, Florença, Siena e Nova York até obter um (uh lah lah) final surpreendente, legal demais, a propósito.


Bem, pensando depois com um pouco mais de calma (passado o estado 'tiete-que-acabou-a-ver-o-menudo') fiquei pensando no conteúdo do livro e no que, afinal, havia nele que me fisgara sobremaneira. Um dos motivos, mais evidente, é o delicioso passeio pela história da arte da Renascença, com direito à cópia impressa dos afrescos logo da entrada do livro, uma delícia. Para descobrir a história do pai do protagonista, acabamos por conhecer alguns detalhes das obras, das vidas dos pintores renascentistas, dos lugares.... enfim... prato cheio para alguém como eu.


Mas tem mais... e é aí que vem uma confissão minha. E descarada: Carlo Antonini, o psicanalista, é uma figura simplesmente adorável. Não farei (nem gosto de) fazer discursos ideológicos feministas, mas, sério, passei horas me deliciando com a naturalidade com que Carlo passa a conhecer o universo daquela que seria sua amante, Nicoletta. A delicadeza certeira e sem pressa, a simplicidade do relacionamento, a suavidade do encontro..... volto a dizer: a (não existe melhor palavra) naturalidade mesmo: Quase como se os dois já se conhecessem há séculos (ele chega a afirmar isso, inclusive), sem nóias, sem pressões, sem comparações, e sem, claro, machismos de quinta categoria, poses, jogos, encenações, estratagemas sentimentais. como estamos (ainda) todos acostumados. Faço questão de reescrever um trecho:


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"Subimos até o último andar. Nicoletta abriu a porta, e eu entrei em uma sala escura com duas janelas grandes ao fundo. Nicoletta entrou atrás de mim e estendeu a mão para acionar o interruptor. Segurei dua mão e pedi: 'Espere um instante'. Ainda com a mão dela na minha, me aproximei das janelas. Estávamos exatamente na altura da base da cúpula de Brunelleschi. Sua simplicidade contrastava com a própria policromia dos mármores do Duomo e, mais ao longe, do campanário de Giotto.


Fiquei olhando para aquela visão em silêncio, sem largar a mão de Nicolleta. Tinha uma sensação de clareza e paz que só podia ser causada pela perfeita e simples cúpula e pelo leve calor da mão que estava na minha mão.


Passado algum tempo, virei o rosto e o corpo para Nicoletta. Ficamos nos encarando no escuro, e aos poucos, timidamente, começamos a nos beijar.


Nicoletta me levou para o quarto, na penumbra. Tiramos a roupa. Era como se eu a conhecesse desde sempre; entrei em seu corpo e senti como se, enfim, estivesse chegado em casa."


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Na boa... sem maiores discursos....em tempos de Mc Créu, Suzaninha e Marcelo 'quebra motel', mulheres-fruta, e otras cositas más, chega a ser um alívio que isso exista. Nem que seja na ficção. Ai ai....