Eu bem que enrolei, mas diante da reportagem de Época, que li hoje (eu sei que eu estou atrasada...) resolvi também dar meu pitaco naquilo que aparentemente todo mundo gostou de comentar: A pichação na Bienal e a prisão da pichadora Caroline Piveta da Mota, que foi solta somente ontem.
Bem... para começar, eu odeio essa expressão (é vulgar, é vulgar) mas, de fato, nessa história toda, a única coisa que me vem é que 'o buraco é mais embaixo'. Assim, vamos lá: Ponto 1. a pichação do prédio da Bienal é (mais um) sinal daquilo que (carinhosamente) chamo de 'a incomunicabilidade da arte contemporânea'. Todo mundo já viu, ouviu e talvez até tenha falado a seguinte expressão: 'Mas isso É ARTE?', 'meu deus....qualquer coisa é arte agora....', ou (e essa é a minha favorita) ' mas até meu filho, de 8 anos, faz isso'..... Pois é... isso é uma discussão muito maior do que parece. Temos a impressão de que se não vier com 'bula' ninguém mais entende um quadro na parede. As artes visuais perderam a capacidade de chocar verdadeiramente o espectador, de causar discursos inflamados, de ser agente transformador, e isso é uma perda e tanto.
Parece que tudo isso foi embora depois das vanguardas do sec. XX. Não há mais nada a se quebrar depois de Malevich e Duchamp. E por isso, talvez, haja uma vontade dentro daqueles que sentem 'verdadeiramente artistas' de 'chegar à última fronteira' e quebrar barreiras, seguir aquela trilha escusa aberta pelos poetas malditos, marginais, ser verdadeiramente revolucionários, de vanguarda e tudo mais. Até aí, eu até entendo. Não concordo, mas entendo.
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Ponto 2. A Bienal de 2004 mostrou ao público o trabalho de 130 expositores. A bienal de 2006, 100 expositores. A de 2008, apenas 42. O segundo andar, vazio, parecia ser a opinião do próprio curador (Ivo Mesquita) que, antes, havia declarado à imprensa:
"as bienais devem ser "laboratórios" onde são mostrados os trabalhos mais inovadores e onde se experimente a maneira de apresentá-los". Junte um mais um: Então se se optou pelo vazio, é porque não há trabalhos inovadores que 'mereçam' ser exibidos... certo?
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Ponto 3. Caroline faz parte de um grupo de pichadores liderados por Rafael 'Pixobomb' (o mesmo que pichou a faculdade de Belas Artes e a Galeria Choque cultural). O grupo afirma praticar 'terrorismo poético'. Para quem não sabe, 'terrorismo poético' é um conceito criado pelo (teórico anarquista) Hakim Bey. Sem mais delongas teóricas, mesmo porque ninguém merece (e sempre existe Santo Google para socorrer se suas aflições), a idéia do grupo era justamente protestar contra o que chamam de 'elitização da arte' e usar o espaço vazio para manifestar a existência do lado 'underground' da arte contemporânea. Mostrar a existência desses artistas que se consideram marginais, fora do mercado, aqueles 'verdadeiros artistas' que mencionei no começo.
Aliás...convenhamos... a ideia de manifestações durante Bienais não é nem um pouco nova: O próprio Eli Sudbrack, (artista multimedia queridinho da cena novaiorquina) afirmou "eu mesmo já colei stickers em exposições importantes nos EUA. Não sei como a curadoria não abraçou o conceito. deve ser Deve haver alguma razão política. Só porque a garota não é do mesmo estrato social da elite artística".
Ahááááá.... e aí....Pergunto eu: se o autor do protesto tivesse feito a ponte aérea Kassel - São Paulo e tivesse nome nas rodinhas de tralálá, será que teria sequer havido prisão? Mesmo se escrevesse a mesma coisa? Mesminha da Silva? Imagine se fosse Nuno Ramos a escrever 'Abaixa a ditadura' não seria aplaudido com fervor e eu estaria aqui, na minha santa ignorância, tentando descobrir o porquê do "abaixA" na manisfestação que ele fez? hummmmm
Eu não sei quanto a você, mas tenho a sensação de todo esse rolo da Bienal é mais uma demonstração de uma parte varrida para debaixo do tapete dos tupiniquins aqui: bichinhos tropicais aparentemente liberais, porém preconceituosos, que acham que 'arte' é aquela coisa celestial, etérea, intocável, inacessível, portanto, a quem diz 'abaixA a ditadura". Arte é coisa de gente fina, não é mesmo?
Ademais, tenho a impressão de que os curadores deveriam ter agradecido a essa moçada, isso sim. Eu sempre vou lembrar dessa Bienal. Mas vou lembrar só do que deu 'errado'.

